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Adestramento positivo ou tradicional?

Cachorro caramelo sentado na grama olhando para a mão de uma pessoa que segura um petisco.

Se você quer um cão que aprenda e continue gostando de aprender, o caminho é o reforço positivo. Se alguém oferecer resultado mais rápido com tranco na guia, enforcador ou coleira de choque, saiba que essa rapidez não aparece de forma consistente nos estudos, e o estresse aparece.

Essa é a nossa leitura, e ela não é só nossa. As principais entidades de veterinária que tratam de comportamento, nos Estados Unidos e no Reino Unido, recomendam treinar com recompensa e desaconselham os métodos que usam dor ou susto. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina Veterinária classifica como maus-tratos o treino "baseado em dor ou sofrimento". A regra vale para veterinários e zootecnistas, e não alcança o adestrador sem essa formação, mas mostra a posição da área. E maus-tratos é crime para qualquer pessoa (Lei 9.605/1998, art. 32), com pena maior quando a vítima é cão ou gato.

O que cada nome quer dizer

Reforço positivo é dar ao cão algo que ele quer (petisco, brinquedo, carinho, a chance de cheirar a árvore) logo depois de ele fazer a coisa certa. O comportamento que dá certo tende a se repetir. Quando ele erra, o adestrador não castiga: muda o exercício, facilita, ensina o que fazer no lugar. Isso não quer dizer deixar tudo: o cão que pula na mesa e pega o frango aprendeu que pular compensa, e ignorar não desfaz isso.

Uma dúvida comum é se o cão vai obedecer só com o petisco à vista. Isso costuma acontecer quando a comida aparece antes, como isca. No treino bem feito, a recompensa vem depois do comportamento, e com o tempo entram brincadeira, atenção e carinho.

Tradicional é o nome comum do método que corrige o erro com desconforto: tranco na guia, enforcador, coleira de pinos (as "garras"), coleira de choque, grito. Também é chamado de método de correção ou aversivo.

Balanceado é a mistura dos dois: recompensa quando acerta, correção quando erra. O nome soa moderado, mas costuma incluir correção aversiva. Se o adestrador disser que é "balanceado", pergunte o que ele usa quando o cão erra.

Lado a lado

Reforço positivoTradicional ou balanceado
Quando o cão acertaganha algo que queràs vezes ganha, às vezes só não é corrigido
Quando o cão errao exercício fica mais fáciltranco, aperto, choque ou bronca
Materialpetisco, pochete, clicker, guia comum, peitoralenforcador, pinos, coleira de choque ou de spray
O que os estudos mostramaprende igual ou melhor, com menos sinais de estressenão aprende mais rápido; mais sinais de estresse
Quem conduz em casavocê, com petisco no bolsovocê, com o aparelho e a mão firme

O que os estudos mostram

Um estudo feito em escolas de adestramento em Portugal acompanhou 92 cães. Os que treinavam com métodos aversivos mostraram mais sinais de estresse na aula, mais hormônio do estresse depois dela e, num teste feito fora da escola, um jeito mais "pessimista" de reagir ao que era novo.

Clicker, pochete de petiscos aberta, guia de nylon enrolada e peitoral em Y sobre a grama.
O kit do reforço positivo cabe na mão: petisco, marcador e uma guia frouxa.

Na Inglaterra, dois estudos com cerca de 60 cães cada compararam a coleira de choque com o treino de recompensa. A coleira não trouxe vantagem. No de 2014, os tutores que usaram choque se disseram menos confiantes para seguir treinando. No de 2020, os cães do reforço positivo obedeceram melhor ao "senta" e ao "vem" já na primeira ordem.

Há quem defenda o contrário. Um estudo de 2024 testou a coleira de choque para cortar a perseguição a uma isca em movimento, e os cães com a coleira pararam em uma ou duas sessões, enquanto os do treino sem aversivo não pararam. Mas boa parte deles voltou a perseguir quando o teste mudou de lugar. É um resultado isolado, num caso específico, contra várias revisões e posições de entidades.

A regra no Brasil

A profissão de adestrador não tem uma lei federal que a regulamente. Ela aparece no cadastro de ocupações do governo, que é só um registro. Na prática, qualquer pessoa pode se apresentar como adestrador, e o curso que ela fez diz pouco sobre o método que ela usa. Por isso as perguntas do fim deste texto valem mais do que o certificado na parede.

A lei, porém, está andando. Em Minas Gerais, a Lei 25.413/2025 proíbe o uso e a venda de coleira antilatido que dá choque desde agosto de 2025, com exceção para os cães de trabalho das forças de segurança do estado. No Senado, o PL 1.146/2023, que proíbe a coleira de choque, o enforcador e as coleiras com pontas voltadas para o corpo, passou pela Comissão de Direitos Humanos em fevereiro de 2026 e ainda segue em tramitação. Se for aprovado como está, a multa é maior quando quem usa o aparelho é profissional de adestramento.

Os formatos de aula

  • Aula em casa: o adestrador vai até você, em geral uma vez por semana, por uma ou duas horas. Você vê tudo, e é você quem treina nos outros seis dias, em sessões curtas, de 5 a 10 minutos, num lugar calmo antes de levar o treino para a rua.
  • Aula em grupo: uma turma de cães num espaço aberto. Custa menos e ajuda na socialização, mas, para o cão muito medroso ou reativo, pergunte se vale começar em aula particular.
  • Online: você grava ou mostra ao vivo e recebe orientação. Serve para quem consegue treinar sozinho, com orientação.
  • Internato ou "escolinha": o cão passa semanas fora, com o adestrador. É o formato em que você menos vê o que acontece. Se for por esse caminho, peça para visitar sem avisar e para assistir a uma sessão.

Quanto custa

Em outubro de 2026, a aula variava de R$ 80 a R$ 350. A ponta de baixo costuma ser aula em grupo; a de cima, aula particular em casa. Em pacote mensal, a faixa vai de R$ 420 a R$ 2.000, e um caso de comportamento mais complexo pode passar do topo dessa faixa. Alguns profissionais cobram à parte a avaliação inicial e o deslocamento.

O que pesa no preço: aula particular ou em grupo, quantas aulas por mês, distância e se o caso é obediência básica ou um problema de comportamento.

Quando o caso é do veterinário

Antes de contratar, pergunte

  1. O que você faz quando o cão erra? A resposta diz o método melhor do que o nome que ele dá a si mesmo.
  2. Usa algum aparelho no pescoço? Enforcador, pinos e choque são a resposta que você não quer.
  3. Posso assistir a uma aula antes? Bom profissional deixa. Quem não deixa você ver o treino, especialmente no internato, merece um não.
  4. Como vamos medir o progresso, e o que acontece se não funcionar?
  5. Você trabalha com veterinário quando o caso é medo ou agressividade?
  6. Promete resultado em quantos dias? Comportamento não tem garantia. Prazo fechado e "cão obediente em X dias" são sinal de alerta.

E repare na conversa. Fala sobre "alfa", "líder da matilha", "o cão precisa respeitar você" ou "o seu cão é dominante" costuma vir junto com o método de correção, assim como virar o cão de barriga para cima à força.

Nosso conselho: escolha o adestrador que ensina você, e não só o cão. Quem vai estar do outro lado da guia nos próximos dez anos é você.

Setor de adestramento